Doença subcutânea causada por fungo, comum em terra e vegetação, tem mais de 300 casos registrados em 2026
Risco à saúde animal e humana, o avanço da esporotricose no estado motivou uma reunião interinstitucional organizada pela Corregedoria-Geral (CG) do Ministério Público do Amazonas (MPAM) e o Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça Especializadas na Proteção e Defesa do Consumidor, dos Direitos Constitucionais do Cidadão e do Patrimônio Público (CAO-PDC), nesta terça-feira (28/04). Representantes do parquet e de órgãos da área de saúde discutiram os principais obstáculos e alinharam estratégias para uma atuação mais efetiva.
O encontro foi conduzido pela corregedora-geral Silvana Nobre de Lima Cabral, acompanhada da procuradora de Justiça Delisa Olívia Vieiralves Ferreira, coordenadora do CAO-PDC; do promotor Carlos Sérgio Edwards de Freitas, coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Proteção ao Meio Ambiente, Patrimônio Histórico e da Ordem Urbanística (CAO-MAPH-URB); e da promotora Cláudia Maria Raposo da Câmara, titular da 54ª Promotoria de Justiça de Defesa dos Direitos Humanos à Saúde Pública (PRODHSP).
Com a presença de representantes de órgãos de saúde — entre os quais, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas - Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS-RCP), o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Manaus, a Diretoria de Vigilância Ambiental e Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa) e o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Amazonas (CRMV-AM) —, o encontro abordou o enfrentamento à expansão da doença no estado, em especial nos municípios interioranos.
Atualmente, segundo levantamento da FVS-RCP, somente 32 das 62 cidades amazonenses contam com médicos-veterinários ligados à gestão municipal. Além disso, o problema, de acordo com os presentes, é intensificado por outros fatores, como o abandono e o acúmulo de animais e a infraestrutura urbana.
“A epidemia de esporotricose é fator de preocupação nos municípios do nosso estado e a Corregedoria entra nessa causa, juntamente com CAO-PDC e CAO-MAPH-URB, para orientar o trabalho no interior. Nosso objetivo é buscar a melhor forma de o Ministério Público lidar com esse cenário, que é preocupante e requer uma atuação mais efetiva”, avaliou a corregedora Silvana Nobre.
Por sua vez, a procuradora Delisa Vieiralves, coordenadora do CAO-PDC, reforçou a necessidade de atuação conjunta com os membros das comarcas do interior. “É preciso não apenas enfrentar, mas prevenir, cobrando que os órgãos competentes ajam de forma efetiva junto à população”, comentou.
O encontro foi motivado pela atuação da promotora Cláudia Câmara, que culminou em uma mudança de cenário na capital. “A atuação do Ministério Público teve início a partir de uma denúncia de que faltava medicamento para os animais no Centro de Zoonoses, mas isso já está superado. Atualmente, temos aprovada uma lei que autoriza o uso de um medicamento humano nos animais (com esporotricose), já disponível e em uso no CCZ. Nas UBS (unidades básicas de saúde), os profissionais também já estão capacitados para identificar e comprovar, via exames, se trata-se de uma lesão causada pelo fungo da esporotricose”, informou a promotora.
Como principal deliberação, a corregedora Silvana Nobre informou que o MP, via CAO-PDC e CAO-MAPH-URB, se debruçará sobre os pontos discutidos e informações fornecidas pelos órgãos presentes à reunião para elaborar uma recomendação que será encaminhada aos promotores do interior.
Atuação integrada
De acordo com Érica Chagas, gerente de Zoonoses do Departamento de Vigilância Ambiental da FVS-RCP, a esporotricose é uma doença cuja responsabilidade não pode ser somente da área de saúde. “Trata-se de uma questão relacionada a meio ambiente, limpeza pública, educação, enfim, vários setores. Por esse motivo, indicamos que, em cada município, seja criado um comitê interinstitucional. Apenas dessa forma, conseguiremos ter uma visão mais ampla do problema e agiremos de forma mais abrangente”, explicou.
Presente ao alinhamento, Marinélia Martins Ferreira, diretora de Vigilância Ambiental e Epidemiológica da Semsa, destacou a necessidade de colaboração por parte da sociedade. “É preciso entender que animal é para a vida toda, que é uma relação de responsabilidade que não se encerra quando o pet adoece”, finalizou.
Esporotricose
A esporotricose é uma micose subcutânea causada pelo fungo Sporothrix, comum em terra e vegetação, que afeta humanos e animais — especialmente gatos. De acordo com dados da FVS-RCP, até o momento, há 321 casos confirmados no Amazonas em 2026, sendo 278 em Manaus.
Texto: Lennon Costa
Foto: Hirailton Gomes e Lennon Costa

