MPAM
Entrevista com a Promotora de Justiça Christiane Dolzany

A Promotora de Justiça Christiane Dolzany Araújo, titular da Comarca do município de São Gabriel da Cachoeira, escolheu cursar Direito desde os 16 anos e na faculdade estava decidida que queria ser Promotora de Justiça. Confira abaixo a entrevista com a Promotora.
AIDC: Como surgiu o interesse em atuar na carreira jurídica?
Quando estamos na fase da adolescência já somos instados a escolher um curso superior que, muitas vezes, mudará nossas vidas por completo. Escolhi cursar Direito aos 16 anos, quando comecei a preparar-me para o vestibular. Fiz a Faculdade e a Pós-Graduação em Direito Penal e Processo Penal no Ciesa e não escondo que minha maior paixão é por estes ramos do Direito. No Ciesa fiz um excelente curso, meu coeficiente geral final foi de 9,6 e atribuo isso à vocação pelo Direito e aos competentes professores que tive como Clara Lindoso, Cláudio Roessing, Elvys de Paula Freitas, Otávio Gomes, Fabíola Monteconrado, Bráulio Guidalevich, Carlos Alberto, Afrânio de Sá Valente e Lélio Lauria. Nos dois últimos anos do Curso fiz dois Júris simulados sob a orientação do Professor e Procurador de Justiça João Bosco de Sá Valente, por quem tenho admiração. Após os júris eu estava extasiada e feliz. Tive a certeza, desde a Faculdade, que queria seguir a carreira de Promotora de Justiça. Cheguei a ir ao Plenário do Júri no Fórum Ministro Henoch Reis e dizer que um dia eu estaria lá como Promotora de Justiça e quando retornei durante o estágio de adaptação a emoção foi muito grande.
AIDC: Conte um pouco sobre sua trajetória jurídica e seu ingresso no MP-AM.
Quando era universitária, fiz estágio na SEFAZ, no setor de contratos, e lá tive uma boa experiência em contratos públicos. Depois trabalhei num banco, onde tive oportunidade de conhecer na prática o direito bancário. Depois disso, estagiei na Defensoria Pública do Estado e no Ministério Público do Trabalho. Ainda na Faculdade, passei no concurso da Polícia Civil e trabalhei na Delegacia do Consumidor, onde tive impagável experiência nesta área. Cheguei a passar em dois concursos, para o cargo de Delegado de Polícia em Roraima e no Tribunal Regional do Trabalho, mas não tomei posse. Trabalhei como advogada, fui professora na UEA e na FAMETRO, no curso de Direito. Antes de tomar posse no Ministério Público, estava atuando como Coordenadora da Comissão de Defesa do Consumidor na Assembléia Legislativa do Estado e lá tive grandes oportunidades de coordenar ações efetivas na defesa do consumidor, como fiscalizações conjuntas com o Procon, a Vigilância Sanitária e o IPEAM. Realizávamos audiências públicas, mutirões de atendimento, além do atendimento diário de orientação jurídica e de audiências conciliatórias. Fazíamos também pesquisa de preços e fiscalizações mensais em supermercados, açougues, postos de gasolina, farmácias, lojas e bancos.
AIDC: Como a Senhora define exercer a profissão de Promotora de Justiça?
É um verdadeiro ministério e recompensa do nosso trabalho é deixar um legado também para as futuras gerações, principalmente nas cidades do interior do nosso Estado, onde a presença do Promotor de Justiça é essencial para garantir os direitos dos cidadãos e os interesses da sociedade. Nesta jornada de quase dois anos, tive oportunidade de me emocionar, de me realizar, de me firmar e de me posicionar diante das situações não só ilegais, mas que me indignaram. Devemos ser técnicos e juristas, mas acho que não devemos nunca nos acostumar com as situações tidas como imutáveis. Acho que ser Promotor de Justiça é olhar além do seu tempo e ter gosto pelos desafios, ainda mais em comunidades tão carentes, e não esmorecer jamais. Agradeço muito a Deus por estar nesta carreira que escolhi com o coração. Nunca tive ambição por outras carreiras, como a magistratura, por exemplo. A inquietude, o questionamento e a vontade de modificar paradigmas sempre me acompanharam. Acredito que podemos conseguir ótimos resultados na nossa atuação, com firmeza, técnica, mas com gentileza e elegância para desmoronar as resistências e fazer nascerem flores em meio às rochas.
AIDC: É difícil ser Promotora de Justiça no Interior do Estado?
A esse respeito posso falar da minha experiência na Promotoria de Justiça de São Gabriel da Cachoeira. É uma comarca que dista 852 quilômetros da Capital, com uma população de aproximadamente 38 mil habitantes e com uma área de 109.185 quilômetros quadrados, considerado um dos maiores Municípios do País. A população é predominantemente indígena e o Município situa-se em área classificada como de segurança nacional em fronteira com a Venezuela e Colômbia. A primeira sensação que tive foi a de um grande desafio a ser vencido. Ainda estamos viabilizando o uso da internet na Promotoria, não tem quem faça os trabalhos externos, como a simples entrega de uma notificação e a Prefeitura não cedeu servidores à Promotoria de Justiça. Temos que cuidar das questões administrativas, da logística, das condições do prédio e ter muita disposição para as atividades da carreira. Isto não é nada fácil. Além dos custos de deslocamento, falta de passagens aéreas e da distância da família. Hoje, o trabalho da Promotoria está todo em dia, não há processos pendentes e todos os processos administrativos estão em ordem também. Os arquivos estão todos saneados e considero que a Promotoria é eficiente, é um Órgão respeitado na Comarca e me sinto orgulhosa do trabalho que está sendo feito em São Gabriel da Cachoeira. No interior, o Promotor de Justiça tem que estar próximo às questões sociais e isto dá mais trabalho do que despachar em gabinete. Considero que, em muitos casos, não há nada que substitua a verificação in loco das situações. Por este motivo já fiz várias inspeções, como as inspeções mensais feitas na Delegacia, no lixão da Cidade, no CREAS, Centro de Atendimento do Idoso, nas Escolas e no depósito da merenda escolar, em estabelecimentos sub judice, além das audiências públicas, reuniões com diversas instituições e acompanhamento mensal da saúde e educação no Município. Todo este trabalho no interior não é fácil, requer muita disposição. No interior nós trabalhamos na semana e nos finais de semana, que é quando temos tempo de fazer melhores pesquisas, estudar e produzir peças que exigem maior concentração. Por isto, lembro-me bem dos desafios que o Dr. Fábio Monteiro nos alertou no dia da posse: Promotor de interior é “full time” (tempo integral em inglês). Mas, sinceramente, todas estas dificuldades diárias não são sentidas tanto quando se ama o que faz.
AIDC: Em que Comarcas do MP-AM a Senhora já atuou?
Em São Gabriel da Cachoeira e em Itacoatiara, onde passei aproximadamente três meses, acumulando duas Promotorias e o Juizado Especial Criminal. Não esqueço quando fiz a primeira viagem para São Gabriel da Cachoeira. Quando o avião já estava sobrevoando próximo à cidade, senti uma sensação de sonho realizado, uma mistura de alegria, ansiedade e nervosismo pelo que me esperava. Era uma sexta-feira e na terça-feira seguinte atuei em 04 Júris, que foram realizados na Câmara dos Vereadores. Foi a minha apresentação à cidade e, na verdade, foi a melhor forma de começar a carreira, no Júri! Em Itacoatiara havia muito trabalho, ainda mais porque eu estava acumulando as Promotorias. Fiz também dois Júris nestes três meses e agradeço muito ter passado aquele tempo lá pela grande experiência que adquiri nos processos em que atuei.
AIDC: Quais os casos mais frequentes que passam pela sua Promotoria ?
Na Promotoria de Justiça de São Gabriel da Cachoeira os processos criminais são a maioria. Os casos mais freqüentes são os de tráfico de drogas, homicídio, lesão corporal, crimes de trânsito, roubos, furtos e estupro. Na área da Infância e Juventude os casos mais comuns são os de furto e lesão corporal. Em virtude da ausência da Defensoria Pública no Município, a Promotoria de Justiça faz muito atendimento de investigação de paternidade e alimentos. São encaminhados também muitos casos pelo Conselho Tutelar em que é necessária uma medida de proteção. A atuação da Promotoria na área da Infância e Juventude é muito árdua devido aos inúmeros casos de pais envolvidos com álcool e drogas. Neste aspecto, já foi instalado no Município um CAPS e em março será inaugurada a Fazenda Esperança na Cidade. Além disso, o CREAS atende às solicitações do Ministério Público, judicialmente e extrajudicialmente, para acompanhamento de pais, crianças e adolescentes. Em vários casos, o acompanhamento psicossocial trouxe ótimos resultados para retorno da criança aos cuidados dos pais. No ano passado, a Promotoria de Justiça requereu judicialmente o lacre definitivo de cinco casas noturnas onde eram permitidas a entrada de adolescentes, o consumo de bebida alcoólica, e consequentemente, a exposição a diversas situações de risco. A justiça concedeu o pedido e hoje no local funciona uma churrascaria rodízio e um mercadinho. Antes, era uma área divulgada nos jornais de Manaus como uma mazela social.
AIDC: De que maneira a Comarca em que a Senhora atua é auxiliada pelo MP-AM?
Quando cheguei em São Gabriel da Cachoeira, reconheço que encontrei muito trabalho acumulado e a Promotoria de Justiça com sérias necessidades. Com a minha inquietude, utilizei meus recursos para pintar a casa, o muro e as grades da Promotoria de Justiça. Precisei colocar o prédio em condições de trabalhar e então solicitamos um computador novo, uma impressora multifuncional que atendesse às necessidades de cópias e digitalização de documentos e isto foi atendido. A maior dificuldade que enfrento é quanto à ausência de servidores no interior. Hoje a Promotoria de São Gabriel da Cachoeira só tem uma estagiária de nível médio, selecionada mediante provas de redação e digitação. Foram 22 inscritos no processo de seleção e fiquei muito feliz com o interesse dos jovens, até pela visita que fiz em todas as escolas no ano passado, aproximando o Órgão dos juventude e dos estudantes. Então, há um ano contratei uma assessora, a Mirlene Salgado, formada em Matemática, a qual me surpreendeu pela competência e iniciativa. Os custos da contratação suportados por mim. Já solicitei servidores da Prefeitura, mas não houve disponibilidade. A este respeito, entendo que a solicitação de cessão de servidores das Prefeituras por intermédio de convênio deveria ser feita diretamente pela Procuradoria-Geral de Justiça, principalmente em Comarcas em que os atuais gestores são ou foram alvo de ações dos Promotores de Justiça do Interior, como é o caso de São Gabriel da Cachoeira. O melhor é prover as Promotorias do Interior com servidores concursados do próprio Órgão e isto já está sendo estudado.
AIDC: A senhora acredita que o Ministério Público cumpre o seu papel?
Sim. Eu não faria parte de uma instituição que consideraria frustrada nos seus fins. Nosso Ministério Público tem excelentes seres humanos atuando na Chefia, como Procuradores de Justiça e como Promotores de Justiça na Capital e no Interior. Nossa instituição é essencial ao funcionamento da justiça e, principalmente no interior do Estado, o Ministério Público, por meio dos aguerridos Promotores de Justiça, fiscaliza a lei e tutela a ordem jurídica, o regime democrático e os interesses e sociais e individuais indisponíveis. Assim, considero que o Ministério Público do Estado do Amazonas trabalha com muitas peculiaridades diante de nossas condições regionais, onde o acesso a algumas Comarcas é feito por vários dias através dos rios. Mas, as ações da instituição tem sido efetivas, seguras e amadurecidas, alcançado ótimos resultados e por isso recebemos o reconhecimento de vários órgãos e o reconhecimento mais valioso, que é o da população carente e isolada do interior.
AIDC: Como avalia a atual Administração do MP-AM?
Quando iniciei minha carreira, compartilhava com os colegas conversas sobre o tempo em que passaríamos no interior e isso me angustiava porque, como mãe, anseio em acompanhar o meu filho e proporcionar a ele iguais condições de aprendizado para o futuro. Hoje posso externar um sentimento de que as expectativas para o futuro da instituição e dos membros são muito melhores do que na época em que iniciei a carreira. Podemos avaliar positivamente o empenho da atual administração no sentido do crescimento estruturado da Instituição, sem utopias ou projetos irrealizáveis.
AIDC: Qual a dica que a Senhora daria para quem quer seguir carreira no Ministério Público?Christiane Dolzany, Promotora de Justiça
Entrevista com o Promotor de Justiça Paulo Stélio Sabbá Guimarães

Paulo Stélio: Fora do magistério, conheci grandes nomes da Justiça Amazonense, dentre os quais destaco os saudosos juristas Dr. Fausto Reis(Juiz de Direito) e Dr. Álvaro César(Advogado), que me motivaram, pelo exemplo de retidão e amor à Justiça, a seguir em frente. Fui estagiário do Ministério Público, momento em que, realmente descobri a minha verdadeira vocação. Graduei-me pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas. Iniciei a minha carreira como advogado, em uma pequena sala, na rua Frei José dos Inocentes, depois mudei-me para uma sala, também, pequena no Palácio do Comércio, onde, com mais dois colegas, Dr. Celso Cavalcanti e Dr. Marco Aurélio Lucas de Souza, montamos um escritório um pouco mais moderno, inclusive com computador e impressora matricial. Naquele tempo, ainda usávamos máquinas de datilografia. Nessa ocasião eu já havia passado no concurso do Ministério Público e estava aguardando a nomeação(longa espera). Fui, também, Assessor Jurídico da Secretaria Estadual de Justina, atuando no PROCON-AM, tendo à frente da Secretaria o Dr. Mauro Luiz Campbell Marques.
AIDC - Quais as Comarcas pelas quais já passou?
AIDC: Qual a principal função da sua Promotoria?
AIDC - Qual a sua mensagem para quem pretende ingressar na carreira jurídica?
"A atuação ministerial é um sacerdócio a nos exigir a cada dia muito suor e determinação. Porém, ouso dizer que poucas são as profissões que dão tanta satisfação a quem as exerce. É muito gratificante você olhar para trás e ver que foi possível mudar o rumo das coisas e que a Justiçá foi feita gracas a sua intervenção. É uma dádiva." (Paulo Stélio)
Entrevista com o Promotor de Justiça Nasser Abrahim Nasser Netto

Promotor de Justiça por vocação, Nasser Abrahim Nasser Netto, é o chefe do CEAF, o Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional do MP-AM. Saiba um pouco mais sobre a trajetória do Promotor na entrevista abaixo:
AIDC: O senhor sempre teve vontade de ingressar na área jurídica? Como surgiu esse interesse?
A princípio, não. Meu interesse era de ingressar em áreas que estudassem as Ciências Sociais, e isso em virtude de minha formação. Desde muito cedo fui mantendo contato com textos marxistas, tendo sido influenciado por minha família. Assim, num primeiro momento, decidi estudar História e, depois, Sociologia. O interesse pela área jurídica veio depois, quando percebi que com o Direito poderia contribuir de forma bastante significativa para a melhoria da sociedade.
AIDC: Fale um pouco sobre sua trajetória na área jurídica até ingressar no Ministério Público do Estado do Amazonas. Há quanto tempo faz parte do MP-AM?
Sou formado pela Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas, tendo colado grau no ano de 1993. Como Bacharel, cheguei a trabalhar como Assessor Parlamentar e Advogado do Município de Manaus. Em 1992, há exatamente vinte anos, e na condição de Acadêmico da Jaqueira, fui Estagiário do MP, tendo trabalhado com grandes nomes, como, por exemplo, o Dr. Mauro Veras, o Dr. Roque, a Dra. Francilene, o Dr. Flávio Lopes, o Dr. Bosco Valente, o Dr. Carlos Coelho, que muito me ensinaram. Tornei-me Promotor de Justiça no ano de 1996, após fazer concurso público de provas e títulos no final do ano de 1995. Agora, em fevereiro de 2012, completo 16 anos de Ministério Público, uma trajetória marcada pela passagem por Comarcas como as de Parintins, Itacoatiara e Manacapuru.
AIDC: Por quais Comarcas e Promotorias que passou?
Assim que fui empossado, obtive designação para atuar na 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de Parintins, tendo lá permanecido de abril de 1996 a julho de 1997. Em seguida, fui designado para atuar na 1ª Promotoria de Justiça da Comarca de Itacoatiara, tendo lá permanecido de agosto a outubro de 1997. No ano de 1998, já na condição de Titular, obtive remoção para a 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de Manacapuru, tendo lá permanecido até agosto de 2002, quando fui convocado para a 40ª Promotoria de Justiça da Capital. Lembro-me, ainda, de que, em outubro de 1996, fui designado para atuar na Promotoria de Justiça Eleitoral da Comarca de Boa Vista do Ramos. Assim, foi uma longa jornada pelo interior de nosso Estado, período em que tive os maiores ensinamentos de minha vida.
AIDC: Como classifica a experiência de conduzir o CEAF? Quais os principais desafios?
Estar à frente do CEAF é um sonho que considero estar realizando. Trata-se, hoje, do meu principal projeto de vida. Não tenho como agradecer ao Dr. Francisco Cruz, meu amigo do peito, a lembrança de meu nome para ocupar uma posição que tanto me felicita e enobrece. Como sou Professor de Direito Penal e de Direito Processual Penal da Faculdade de Direito da UFAM, tenho, aqui no CEAF, a grande oportunidade de, nos eventos que promovo, contribuir para a discussão dos grandes temas relativos à Ciência do Direito. Assim, consigo manter um link entre a minha atividade na docência e o mister que desenvolvo nesta Instituição. Quanto aos desafios que o CEAF apresenta, eles são muitos, podendo eu citar, como o principal deles, a procura de nomes de peso para tomarem parte nos eventos deste Centro de Estudos. Não fujo de desafios, já que eles dão a tônica da importância da atuação de todo profissional.
AIDC: Em sua opinião, qual a contribuição do Ministério Público Estadual para a sociedade amazonense.
Não é por se tratar da Instituição de cujos quadros faço parte como Membro, mas acho que a contribuição dada pelo MP para a sociedade amazonense é a maior possível. A atuação ministerial tem contribuído decisivamente para a politização de nossa comunidade. Hoje em dia, se o povo amazonense briga mais por seus direitos, não tenho dúvida, é porque tem trabalho do Ministério Público. Não conheço nenhuma outra instituição em que seus membros ou representantes sejam tão engajados na causa pública como o são Promotores e Procuradores de Justiça.
AIDC: Então, o MP-AM está cumprindo seu papel perante a sociedade?
Não resta a menor dúvida de que está. A atuação dos Membros de nosso Ministério Público é a mais efetiva e competente possível. Quando, em 1988, o Constituinte deu-nos a incumbência de velar pela ordem jurídica, pelo regime democrático e pelos direitos sociais e individuais indisponíveis, sabia exatamente o que estava fazendo, pois colocou tais funções nas mãos de Profissionais extremamente preparados e que lutam diuturnamente pela eficácia das leis vigentes no País.
AIDC: Qual a análise que o senhor faz de sua atuação no Ministério Público Estadual?
Minha atuação, desde que entrei no exercício das atribuições do cargo de Promotor de Justiça, o que se deu em fevereiro de 1996, sempre foi pautada por uma autocobrança muito grande. Sou daquelas pessoas que gostam de perfeição. Exijo demais de mim mesmo, ao ponto de refazer um parecer ou uma promoção quando detecto um singelo erro de acentuação gráfica. Não sei se isso é bom ou ruim, mas é um reflexo de meu temperamento. É manifestação de minha responsabilidade. De qualquer forma, avalio a minha atuação no MP como tendo sido guiada pelas pautas da legalidade e da eficiência de todos os atos que pratiquei.
AIDC: Qual sua opinião sobre a atual administração do MP-AM?
Trata-se de uma das melhores administrações que já acompanhei. O Dr. Francisco Cruz tem um discurso admirável e absolutamente coerente com a pessoa intelectualizada que ele é. A atual administração tem primado por valores que considero transcendentais, tal a sua importância, podendo eu citar, como exemplos: o trabalho, o respeito à coisa pública, a moralidade, a transparência, a dignidade institucional, dentre outros que permeiam uma administração proba e correta. Não conheço críticas à atual administração superior de nosso Parquet. Conheço, sim, muitos elogios. Não existem, hoje, hiatos ou lacunas administrativas a serem colmatadas no Ministério Público. Os espaços estão todos preenchidos. Todos os Órgãos funcionam bem. Vejo minha Instituição caminhar e caminhar. Isso para mim é motivo de grande regozijo.
AIDC: Que mensagem o senhor deixaria para aos futuros Promotores de Justiça do Ministério Público ou os que pretendem ingressar na carreira jurídica?
A mensagem é a da identificação com a função a ser exercida. Quando se fala em Ministério Público, trata-se, realmente, de um ministério. E como todo ministério, o nosso exige total dedicação. O novo Promotor precisa imbuir-se de espírito verdadeiramente público, agindo sempre com a consciência de que o Promotor acusador já pertence às amarelas páginas da História. Atualmente, o Promotor atua tendo em vista os valores da cidadania e, principalmente, da dignidade da pessoa humana. Enfim, é como diz o nosso lema, segundo o qual legum sustentatio magnum sacerdotum.
"Acho que nosso MP cresceu muito em muito pouco tempo. Nada, na vida, é o ideal. Sonho sempre com um Ministério Público cada vez maior e mais forte. Cioso de suas responsabilidades nosso MP já é. Não há uma receita. O que há é uma incessante luta, pois, como diz o Poeta: 'navegar é preciso, viver não é'".
Entrevista com a Promotora de Justiça Carolina Monteiro Chagas Maia

A Promotora de Justiça Carolina Monteiro Chagas Maia sempre sonhou em exercer a profissão. Ela diz que contou com o apoio incondicional da família e que o trabalho no MP-AM é a realização de um sonho, de um projeto de vida. Confira a entrevista na íntegra.
AIDC: Como a Senhora define exercer a profissão de Promtora de Justiça?
Desde que me tornei Promotora de Justiça do Estado do Amazonas tenho vivido uma experiência ímpar. Aqui conheci uma realidade nova, já que não sou deste Estado, me encontrei como ser humano, amadureci e tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas. Tenho todo o entusiasmo pela frente. Estou certa de que acertarei muitas vezes e errarei outras tantas, mas sempre procurarei fazer o melhor possível.
AIDC: É difícil ser Promotora de Justiça no Interior do Estado?
É sim. As peculiaridades geográficas da região que a elevam a uma condição quase continental provocam um isolamento constante, com altos custos logísticos e criam especificidades só aqui encontradas. Mas ao mesmo tempo, diante das belezas naturais e principalmente do que um Promotor de Justiça representa em uma pequena comarca do interior do Amazonas, com o poder de transformação de vidas que ele tem, a missão se torna gratificante e até mágica! Aqui o MP pode aplicar o preceito constitucional de servir de instrumento de transformação social com a maior intensidade desse país.
AIDC: Em que Comarcas do MP-AM a Senhora já trabalhou antes de fixar-se em Juruá?
Desde que entrei no MP do Amazonas, há pouco mais de dois anos, sou titular de Juruá, mas durante esse tempo tive as funções ampliadas para Coari, onde passei dois meses e Itacoatiara onde trabalhei por um ano e meio. Também passei um mês em Codajás, já participei de uma audiência pública em Japurá e recentemente estive por quase dois meses no Careiro da Várzea.
AIDC: Quais os casos mais frequentes que passam pela sua Promotoria ?
Além dos atendimentos que deveriam ser realizados pela Defensoria Pública na área de família e acabam sendo efetivados pelo Ministério Público, diante da ausência daquele órgão no interior deste Estado, os casos mais freqüentes em Juruá envolvem lesões corporais, situações de violência doméstica, de pequenos furtos e de menores em situação de vulnerabilidade.
AIDC: De que maneira a Comarca que a Senhora atua é auxiliada pelo MP-AM?
É certo que o MP-AM ainda precisa fazer muito para equipar as comarcas do interior e fornecer subsídios aos Promotores que lá atuam. No entanto, sempre que precisei, o MP-AM atendeu minhas solicitações. Quando cheguei a Juruá, para citar como exemplo, sequer havia uma linha telefônica na Promotoria. Também os computadores que lá se encontravam não estavam em regular funcionamento. Atualmente, há uma linha instalada dentro da sala do MP com fax, computador e notebook novos, além de uma estagiária para auxiliar nos trabalhos.
AIDC: A senhora acredita que o Ministério Público cumpre o seu papel?
Sim, na medida do possível. O Ministério Público ainda é uma instituição respeitada e, principalmente em comarcas isoladas, como é o caso de Juruá, funciona como uma esperança para a população humilde e ressentida pela falta de políticas públicas e pela ausência das instituições estatais.
AIDC: Como avalia a atual Administração do MP-AM?
Transformadora. Vejo que a atual Administração vem implementando mudanças eficazes que, de um lado, buscam melhorar as condições de trabalho de seus membros e funcionários e, de outro, procuram fornecer à sociedade, o que ela espera da instituição, no exato cumprimento da nossa Constituição.
AIDC: Qual a dica que a Senhora daria para quem quer seguir carreira no Ministério Público?
Além de estudar bastante é importante que só se decida pela carreira ministerial quem tiver vocação. O Promotor de Justiça deve se pautar pelos princípios da ética e da consciência profissional. Também deve ser alguém que não tema os desafios, não fuja de suas responsabilidades e honre com magnitude a importância do seu cargo, mas com o dever da humildade, no cumprimento duro e inflexível das obrigações diárias. Porque só assim, cada vez mais, a instituição poderá continuar fortalecida perante a sociedade e não perderá os poderes que conquistou até então.
"O Ministério Público é minha vida. Não me vejo fazendo outra coisa. Sinto orgulho de fazer parte de um órgão que é função essencial à prestação jurisdicional, ao qual cabe zelar e lutar pelos interesses da sociedade, defendendo-os como se próprios fossem."
Carolina Maia
Entrevista com a Promotora de Justiça Anabel Vitória Mendonça de Souza
Anabel Vitória Mendonça de Souza, Promotora de Justiça da 33ª Promotoria de Justiça, Especializada em Direito das Famílias e Sucessões.
AIDC: Como foi a decisão de seguir na carreira de Promotora de Justiça e há quanto tempo está no Ministério Público do Estado do Amazonas?
R: Eu voltada de Brasília, pois lá me formei em direito e a decisão veio como consequência de um encontro casual com a Dra. Maria Eunice Lopes de Lima Campos, Promotora de Justiça da 11ª Promotoria de Justiça da Comarca de Manaus, que voltava do Rio de Janeiro, onde se formou em direito, e exato quando inferimos que poderíamos alçar vôos maiores, vez que eramos alunas de direito que adorávamos sorver conhecimento e fundamentalmente compreender os meandros do que nos era ensinado, dos princípios às regras outras que davam sustentação ao ordenamento jurídico brasileiro. Fomos vitoriosas no mesmo concurso que culminou com a nossa posse no ano de 1990. Poderia após ter pretendido outros cargos públicos, mas a despeito de alguns momentos difíceis, como é natural onde há seres humanos, avalio que a carreira que me escolheu e me acolheu foi recebida por mim de braços abertos e busquei aconchegá-la e defendê-la (palavras usuais na voz e na vez de uma familiarísta), lutando ferozmente algumas vezes na companhia de poucos adeptos pela mantença de seu ideário.
AIDC: A sua trajetória dentro do MP-AM: por quais comarcas já passou, como foi a atuação em cada uma delas?
R: Ao tomar posse fui designada para atuar na Comarca de Humaitá, depois atuei na Comarca de Coari, na seqüência fui removida para atuar na Comarca do Careiro da Várzea e no lapso de 6 meses, passei pela Comarca de Rio Preto da Eva, por designação, em virtude da licença maternidade de uma colega. Sempre busquei atuar com esmero. Pautei minhas ações tentando ser fiel ao meu juramento quando da posse. Fui incansável na defesa dos menos favorecidos, não compactuei com a desídia, com a incompetência ou a corrupção, embora não tenha faltado durante a caminhada alguns percalços.Certa vez, cheguei numa delas e o escrivão conduziu-me para minha sala, era na cozinha, de frente para uma pia imunda. O Magistrado ficou constrangido e por elegância determinou que minha mesa fosse removida para dentro da sala dele. Eu aceitei, ambos perdemos a privacidade, mas parafraseando Rita Lee, não quero luxo, mas também não me conformo com o lixo. Reconheço cada vez mais minha pequenez, minha impotência, e até certo ponto uma certa ingenuidade, minha ausência absoluta de competência para praticar o que chamam de política, da institucional a qualquer outra. Não sou melhor do que qualquer outro ser humano, mas sempre busquei ser fiel aos meus princípios, venho me aliando aos que não se adéquam ao continuísmo, e se impressionam com os verdadeiros ditames de uma democracia, cujo pressuposto é aceitar a imperiosa alternância de poder, ( nem sempre a alternância vai significar agradar ao interesse individual, é experimentar perder e experimentar ganhar, em jogo com cartas na mesa e não na manga, sem fraude ou pactuações precedentes espúrias) e vou em frente sem grupos ou esteio, senão aquele que alimente minha alma pelo menos durante algum tempo com uma proposta de novo, vez que não me impressiona a novidade, embora siga absolutamente fora de moda. Ainda há muito de autoritarismo na pele de cada um de nós, daí a necessidade do sempre autovigiar, é uma luta de todo dia.
Todavia, vamos seguir nesse relembrar. Na Comarca de Manaus, trabalhei nas Câmaras Reunidas, (TJ/AM), Promotoria do Consumidor, Meio Ambiente, Fazenda Pública, tribunal do Júri, Criminal, Infância e Juventude, Defesa do Cidadão, e outras, trabalhei no Gabinete de Assuntos Jurídicos (Assessoria do PGJ), fui diretora do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional, ( Quatro anos e meio), período do qual tenho saudade, pois toda minha força e todo meu empenho findaram por viabilizar que o então Dr. Mauro Marques virasse o olhar para a necessidade de melhorar as minhas condições de trabalho, pois comecei a dirigir o CEAF de dentro de uma biblioteca insalubre e quando deixei a referida Diretoria, já estava exercendo o meu trabalho em Prédio/casa muito bem estruturado, (orçado pelo Procurador Geral de Justiça, atualmente Ministro do STJ Mauro Marques e entregue durante a gestão da hoje Desdora Socorro Guedes Moura, que foi incansável também para que tudo acontecesse de modo a ensejar o desfecho por mim e por ambos idealizado). O referido prédio/casa tinha em sua entrada a indicação ESCOLA SUPERIOR DO MINISTÉRIO PÚBLICO. Quando sai da direção para me candidatar ao cargo de Procurador Geral de Justiça, já estava no momento em que sonhava de que a escola passaria a existir não só de fato, mas de direito e fosse administrada por uma fundação, sonho que foi abalado, pois o mesmo Procurador Geral de Justiça que sonhou meu sonho, negociou com o Governo do Estado do Amazonas o Prédio/Casa ( onde hoje funciona uma das instalações da Defensoria Pública do Estado do Amazonas), isso anos depois, para que fosse edificado prédio anexo à sede da Procuradoria Geral de Justiça na Ponta Negra (muitos motivos podem tê-lo conduzido a aniquilar a própria realização). O referido prédio anexo foi orçado na gestão do ex Procurador Geral de Justiça, atual Ministro Mauro Marques, porém dimencionado em suas filigranas e edificado na gestão do Dr. Otávio Gomes, recebeu o nome do meu tio Aderson Dutra, ex Procurador Geral de Justiça já falecido, e foi inaugurado com festa, o que não significou apto a funcionar. De todo modo, se funcionar será por pouco tempo, porque o hoje Procurador Geral de Justiça do Amazonas, Dr. Francisco Cruz, que como seus antecessores pensa grande e nos tirou das salas emprestadas de propriedade do Poder Judiciário, sempre ameaçados de despejo, a cada novo Presidente do Tribunal de Justiça empossado, onde exercíamos nossas funções numa verdadeira promiscuidade coletiva, (termo usado por mim unicamente para refletir o meu pensar do que possa ser um punhado de gente que não tinha nenhuma privacidade, inclusive para ouvir os jurisdicionados amparados pelo segredo de justiça), já deu passo largo para que um Edifício situado na rua André Araújo-Aleixo- Manaus, de mais ou menos 18 andares, comporte todos os membros do Ministério Público e funcionários, com estrutura para lá de digna, realidade ainda faltante para muitos Promotores de Justiça e funcionários de nossa instituição. Tive a honra de ser sondada por candidatos e até um Procurador Geral de Justiça para assumir novamente o CEAF. Dois motivos me impedem: 1. Quem me conhece de perto sabe que cada vez mais é uma dificuldade para mim viajar, senão com pessoas que me são queridas, e até assim já venho resistindo se é pra muito longe, já não gostava naquela época e menos agora, pois de dois em dois meses há encontros dos Diretores dos CEAF e das Escolas Superiores do Ministério Público em algum Estado da Federação. 2. Meu corpo não me pede autorização para envelhecer, mas minha mente continua inquieta. Esse desafio eu já enfrentei, é página que já virei. Mas, sou apoiadora de todos os meus colegas que assumem a tarefa, ontem, hoje e sempre, pois sei que é um desafio superlativado, pois seduzir iguais é mais difícil que seduzir diferentes, caminhada que exige postura firme de diretor de escola, sem perder a doçura e emparelhar encantamentos. Dizia aos funcionários que estavam comigo, isso aqui é um show, quando a cortina abre não pode haver falhas, ninguém precisa ou almeja saber as dores dos bastidores. Depois desse período de CEAF, assumi uma Promotoria Especializada em Direito das Famílias e Sucessões, outra luta empreendida quando me deparei com o caos em duas Varas de Família e Sucessões, luta que ensejou correição ordinária do Tribunal de Justiça a constatar os fatos relatados por mim, porém com pouco resultado, quase nenhuma conseqüência para os faltosos em atenção ao seu mister,(tempos difíceis, sozinha, sem a minha instituição a fazer nada, de todo lado era silêncio e aquele velho e sabido comportamento do não vejo, não ouço, não falo, não escrevo). Esse é o nosso Brasil, se tentar consertar você vira persona non grata, vira a chata do pedaço, a metida a honesta, e outros demais adjetivos que tive que ouvi que ouviram. Até agora nesses 30 anos de vida pública, 21 anos de Ministério Público só iria ser processada uma vez, exato por ter sido partícipe de um abaixo assinado para que investigado fosse um Procurador Geral de Justiça, que depois realmente foi afastado em face da ingerência do CNMP, (afinal lembrar é sempre preciso, senão vamos fazer como o Irã que afirma não ter havido o holocausto, além do que não esquecer a escuridão nos faz agradecer o amanhecer e quem sabe evitar de cair na mesma tentação), mas soube depois que tiveram que deixar de me colocar no banco dos réus, eu e alguns colegas inconformados, por conta novamente do CNMP. Então, bendito CNMP! Algumas vezes, pode até se exceder, pois não conhece a jornada de cada membro dos Ministérios Públicos Estaduais, mas em muitos casos, se não existisse, nada teria acontecido.
AIDC: A sua trajetória dentro do MP-AM: como é a experiência de ser um Promotor de Justiça no interior do Amazonas?
R: Há membros do Ministério Público que muito bem se adaptam, recusam, inclusive, promoção para a Comarca de Manaus, por mais diferentes motivos. Para maioria de nós é sofrido o tempo do interior, ainda que seja por 7 meses como alguns colegas que me antecederam tiveram a sorte de lá permanecer, vez que de logo foram chamados para exercerem seu munus público na Comarca de Manaus, nas Delegacias de Polícia, onde tinham uma salinha, em face da CRFB/88, por conta do controle externo da atividade policial, ( enquanto advogada me deparei com um deles, hoje até fora da carreira) que anos nem muito depois foi repensado na sua forma de atuação. Certa vez, eu era Promotora Eleitoral na Comarca do Careiro da Várzea, no último dia sentia um calor horrível, pensei que fosse por conta da quadra do colégio, estava muito quente, trabalhei com afinco, não era ainda a época do voto eletrônico, quando por volta de 2 horas da madrugada, ao voltarmos para Manaus, com urnas e tudo, disseram-me: você está muito vermelha. Cheguei em casa, ao me olhar no espelho estava um horror. Fui diagnosticada com rubéola. Depois de 2 anos que sai dessa Comarca, fui homenageada pela cidade, para mim uma honra, já não estava com a caneta na mão e não mexi uma palha para que tivesse acontecido. Está no interior também pode ser alegria em razão de suas ações. Todos que estavam naquele ginásio, depois de meu pronunciamento me aplaudiram em franca demonstração de aconchego, abraçavam-me. Uma manhã linda de sol, era o Ministério Público reconhecido, contemplado, não era rebanho ou massa humana conduzida ou patrocinada. Era o povo espontaneamente se exprimindo, sem grilhões, sem pretender troca de favores, livre, inclusive, para calar. Voltei com a sensação do reconhecimento do dever cumprido. Não havia espaço para o vazio. O que é conquistado deve ser comemorado, sou humana.
Entrei na carreira num tempo em que na Capital havia vaga com mais facilidade, pois muitos dos membros do Ministério Público que me antecederam se aposentaram. Dia desses encontrei uma colega chorando, ( está no interior para lá de 11 anos), seu tempo de um ano na Capital havia expirado, tinha que dar vez para o membro do Ministério Púbico subseqüente da lista de antiguidade, que também ansiosamente esperava iniciar seu tempo para prestar o seu serviço na Comarca de Manaus. Infelizmente venho ouvindo de meus colegas que estão hoje no interior que não mudou muito o interior da época atual para minha época, no aspecto energia elétrica, alimentação, moradia, lazer, enfim. Todo o encanto com a carreira pode ficar embotado, com a falta de expectativa de movimentação. Ser Promotor de Justiça do Interior é dar tudo de se, ser cobrado, tentar o seu melhor e ainda assim ficar devendo, principalmente à família de seus membros que podem passar anos e anos com uma presença ausente, a miragem num enredo que pode se definitivar e aniquilar sua estrutura.
AIDC: Sobre a 5ª Vara da Família, como é o trabalho, quais são os principais casos, e a quantidade dos mesmos?
R: A Vara de Família trata de questões das mais variadas, tais como investigação de paternidade, negatória de paternidade, guarda de crianças e adolescentes entre pais e para terceiros, ação de alimentos, execução desses alimentos, divórcio, união estável, interdição e outras questões, não obstante, essas referidas sejam as recorrentes. O Ministério Público atua no mais das vezes na condição de fiscal da aplicação do justo direito, não obstante, em alguns casos pode ser o titular da Ação como no caso das Interdições, por exemplo. Relevante lembrar que a 5a Vara ainda atua com o direito sucessório, pois não há ainda uma Vara Especializada no Direito das Sucessões, então, trabalha o Promotor de Justiça também nos casos de Inventário, onde há interesse de menores ou incapazes. São quase 2.800 processos em tramitação.
AIDC: De que forma o cidadão pode ser atendido pelas Promotorias da Família?
R: Minha porta está sempre aberta ao público, só não atendo se estou em audiência. Compreendo que a sociedade desacredita na justiça, afinal são tantos os escândalos, o jurisdicionado sente a necessidade de falar pessoalmente com o Promotor de Justiça ou com o Juiz, e se for possível com os dois, como para dar mais ênfase ao que diz o intermediário de seu acesso a ela.(Defensor Público ou Advogado).
AIDC: Quanto a trajetória do Ministério Público amazonense, como avalia a atuação do órgão dentro do Estado - contribuições, necessidades, metas?
R: Estamos em período de franca mudança de mentalidade. A própria recomendação no 16/CNMP destaca que devemos estar onde somos realmente relevantes na defesa dos direitos sociais e individuais indisponíveis, do regime democrático e da ordem jurídica. Essa meta está na CRFB desde 1988, sucede que principalmente nas Varas de Família e Sucessões atuávamos em todos os processos, o que ensejava substituir tarefas que não nos eram afetas, a impulsionar o processo, diligenciando, como por exemplo, para que réus fossem citados. Isso vem diminuindo, mas ainda ocorre. É perda de tempo e apequena a relevância da Instituição que é essencial à função jurisdicional do Estado. Com o sistema de automação do judiciário ( SAJ), foi possível trabalhar com mais celeridade. O Ministério Público do Amazonas conseguiu e consegue manter a sua imagem de Instituição livre de ideologias caóticas, credos sabotadores, e estampa uma atuação firme e decidida, pois os membros que resvalaram ou resvalam são poucos, existe uma maioria que faz e deixa fazer. Existe uma maioria comprometida e séria. Eu tenho orgulho de ser MP.
AIDC: Sobre a atual administração do MP-AM, qual a sua avaliação?
R: Não me trouxe decepções. Além do Prédio melhor estruturado que já está com a obra em andamento e trará tratamento igual aos iguais, nem mais e nem menos, a viabilizar que membros e funcionários com atuação na comarca de Manaus possam ter os mesmos direitos, vez que possuem os mesmos deveres, também o atual PGJ vem dotando as Promotorias de Justiça com técnicos de nível Superior, estabelecendo como meta em futuro próximo de que cada Promotoria de Justiça tenha o suporte necessário para melhorar e imprimir mais qualidade e celeridade ao seu trabalho de modo a atingir o fim precípuo de atender as demandas da sociedade. Observo que trabalha em várias frentes, sem olvidar dos meus queridos colegas que atuam nas Comarcas do interior.
AIDC: Qual sua avaliação sobre o trabalho do MP-AM em comparação a Ministérios Públicos de outros Estados?
R: O Ministério Público do Amazonas não é grande como o de São Paulo e Rio de Janeiro, somos Promotores de Justiça dos rios e não das estradas, até a geografia nos prejudica. O Amazonas é enorme. Para eu trabalhar em Humaitá (Comarca no Amazonas) tinha que viajar de avião para Porto Velho (Rondônia), e depois enfrentava mais duas horas de carro para voltar para o Amazonas/Humaitá. Induvidosamente, temos dificuldades das mais diversas que não existem em outros Estados da Federação. Bendita internet e outros meios de atualização do conhecimento, no presente mais acessíveis. Manaus cresce, está sendo notada pelo resto do Brasil, isso implicou de que o Ministério Público de nosso Estado tivesse se afastado do viés provinciano e já possa discutir de igual pra igual com outros Ministérios Públicos da Federação todo e qualquer assunto que lhe diga respeito. Não ficamos mais no final da sala sem voz, acanhados e desinteressados, sempre à reboque, pois em nosso quadro existem profissionais da mais alta qualidade, alçados ao cargo em concurso público em face única e exclusivamente de seu preparo, o que lhes facilita a independência, dotados de capacidade para discutir os assuntos que são afetos às suas promotorias de justiça sem se deixar intimidar. A fase é de crescimento, estamos amadurecendo devagar, mas a densidade é fato inarredável, e se faz evidente a cada dia.
AIDC: Como a senhora avalia o trabalho de um Promotor de Justiça e sua importância do MP dentro da democracia?
R: Diria que trabalho que costuma dar trabalho aos comprometidos de caráter. Não é sem motivo que vira e mexe os poderosos tentam nos amordaçar, tirar prerrogativas, nos intimidar. Em qualquer trincheira em que estejamos, se eficientes e comprometidos, incomodamos. Há colegas que vivem sobressaltados, escoltados por policiais, sem o direito básico de ir e vir. São prisioneiros sem grades de uma realidade cruel. Na hipótese de querer mesmo que as coisas aconteçam é tiro de todo lado. As vezes, é desestimulante, daí porque há profissionais do direito que se deixam cooptar. É sempre mais fácil a conformação. O Ministério Público já serviu à ditadura, mas é na Democracia que se faz mais veemente e relevante a sua tarefa, diria que indispensável, essencial mesmo no dizer da própria Constituição da República. Defensor da sociedade, acusa quem tem de acusar, defende quem tem de defender. Ser Promotor de Justiça é manter a sensibilidade, sem perder de vista a firmeza. É abrandar, conciliar, sem se amoldar ao medo de desagradar. É se fazer entender ou se desentender se necessário for. É se alinhar com um ativismo judicial moderado, é não acatar qualquer modificação de lei que possa depositar poder na mão de um único ser humano, na hipótese de viabilizar superpoderes ao Magistrado de 1a instância, por exemplo, e como conseqüência silenciar a voz das partes, a comprometer a segurança jurídica em prol de uma celeridade que pode bancar irreversíveis injustiças. É não ser vassalo do argumento utilitarista, tampouco ser um libertário radical. É não ser imprudente, porém não silenciar por covardia ou receio de se complicar. É nem sempre exercer tarefa fácil, porém exercer tarefa de extrema valia. Para ser um Promotor de Justiça, enfim, é preciso ser aguerrido e lutar todos os dias para se manter limpo, pois quem está de pé pode cair. Não há hora, nem tempo para se quedar ao canto da sereia, é mais fácil sucumbir, afinal de contas o crime está organizado, as nossas mentes nem sempre estão.
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